Bem Vindos O que os homens chamam de amizade nada mais é do que uma aliança, uma conciliação de interesses recíprocos, uma troca de favores. Na realidade, é um sistema comercial, no qual o amor de si mesmo espera recolher alguma vantagem. La Ro

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Out 07
Nunca foi o leitor destas linhas, a cada tempo, leitor apenas de um livro. O
que nisso pudesse haver perdido em mais aprofundada atenção a cada página
teria ganho, por certo, em variedade e ligeireza, e não pouco no número de
palavras que lhe passaram sob os olhos. De resto, são muitos e bons os que
entendem que lendo depressa se lê melhor, pelo que também aqui teria
recolhido algum benefício.

De momento, e num rápido balanço, tem em mãos nada menos que um romance
francês, uma biografia por uma contemporânea lusa, dois volume de viagem que
lhe falam da Estremadura espanhola, um ensaio que procura sondar a alma mais
recôndita de um grande renascentista, um estudo sobre a defesa dos direitos
cívicos na Grã-Bretanha. Isto, para além das cartas que recebe, das
pesquisas que realiza, dos diários e semanários que compra ou que lhe
emprestam e, enfim, das facturas, dos ofícios, das ordens-de-serviço e de
outras miúdas e quejandas asquerosidades.

Ler desta forma, com paixão e angústia, como se daí dependesse algo como a
sobrevivência individual e colectiva, torna-se, estamos em crer, vício de
que será bom irem-se limpando os principiantes. A nós, que o temos
inveterado desde a infância, praticamente impossível se afigura a conversão
a uso mais salutar e, convenhamos, mais humano do tempo. A leitura é já não
um hábito ou uma obrigação ou um jogo, mas acto biologicamente elementar a
que só pela violência contranatura se logrará resistir.

Junto deste sujeito compulsivo não colhe o argumento de que a vida não são
letras impressas, nem vale a pena pedirem-lhe que explique como o tempo lhe
basta para a prática da sua mania. Achará sempre desculpa para o
esquecimento que comete de outras mais proveitosas e necessárias funções, e
explicação para o preenchimento dos minutos que lhe sobram com o
preto-no-branco da sua perdição.

Acreditamos, porém, que não seja tão novo o fenómeno quanto o consideram os
nautas embriagados na celebrada galáxia de Guttemberg. Não seriam desta
massa, com efeito, os velhos poetas escanzelados, os Jeremias e os Ezequiéis
e os Jonas, soletrando com seus lábios de poeira castanha os versículos de
um longo texto interior? E a proverbial sibila de Cumes, de olhos cerrados
em sua húmida gruta à beira-mar, traduzindo em grandes brados e grandes
gestos a oração que alguém depositara em suas entranhas? E os loucos, os
fala-sós, os sonâmbulos de todos os tempos e lugares?

É como se o escrito desse corpo aos dias. Nele se vêem contidas as leis e as
respostas, a morfologia dos sentimentos e do pensar, o passado e o futuro, a
imaginação e a fé. Regressa-se a ele como à fonte donde promana a
existência, nele se vertem as razões de continuar e de permanecer entre
coisas que façam, ao menos, um pouco de sentido.

Os leitores de um livro de cada vez são quase sempre ocasionais, ou *parvenus,
*ou obrigados, ou gente que lê para matar as horas, o que constitui a mais
alienada e alienante modalidade de ler. São tipos em geral mal apetrechados
do apetite vital, destituídos dessa curiosidade ou dessa atenção pelos
outros em que se baseia, talvez, aquilo a que chamamos atracção ou fascínio
pessoal. Preferível, então, no critério de um leitor obcecado, não abrir
volume que se veja, investindo em outras sedes a energia desse modo
desperdiçada. Só lêem assim os que, perguntados da marca de um vinho
provado, se declaram inteiramente esquecidos, e o identificam apenas como
maduro ou apenas como verde, quando não simplesmente como tinto ou como
branco.
Mas há preços muito altos a pagar pelo pecado de ler sem conta nem medida,
sem horário nem maneiras, sem receios nem descrição. E são variados esses
preços. Não residirá, com certeza, o menor de todos eles nessa estranha
cegueira dos leitores enraivecidos, a que não os deixa ver a finíssima rede
das nervuras da folha de um plátano, e que os proíbe assim de viajar através
dela, numa interminável, maravilhosa, redentora expedição sem roteiro nem
mapa.


in Mário Cláudio,
publicado por SISTER às 11:15

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