Bem Vindos O que os homens chamam de amizade nada mais é do que uma aliança, uma conciliação de interesses recíprocos, uma troca de favores. Na realidade, é um sistema comercial, no qual o amor de si mesmo espera recolher alguma vantagem. La Ro

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Out 09

Na poltrona ao lado , estava sentado um homem de posição e autoridade. Parecia bem compenetrado disso, pois seu aspecto, suas maneiras e atitudes proclamavam a sua importancia. Era um alto funcionário do governo e os que estavam próximos se lhe mostravam muitos deferentes . Dizia , em alta voz , a um companheiro , ser monstruoso o importunarem por causa de serviços oficiais secundários. Resmungava a propósito do procedimento dos seus subordinados , e os ouvintes se mostravam nervosos e apreensivos. Voávamos muito acima das nuvens,  a uma altura de dezoito mil pés, e pelas frestas das nuvens via-se , lá embaixo, o mar azul. Quando as nuvens se dissiparam um pouco , apareceram as montanhas cobertas de neve, as ilhas , e largas enseadas. Como estavam distantes e como eram belas as casas solitárias , e as pequenas aldeias! Um rio descia das montanhas para o mar. Passava por uma cidade, enfumaçada e escura, onde as águas se poluíam ; logo adiante , porém , se mostravam de novo límpidas e rutilantes. Num dos assentos, um pouco mais longe , estava um oficial uniformizado , o peito coberto de fitas , arrogante e inacessível . Pertencia a uma classe à parte , existente no mundo inteiro.
 
Por que temos tanta ânsia de louvor , por que queremos ser tidos em grande conta , ser estimulados?  Por que razão somos tão esnobes? Porque nos apegamos à exclusividade de nosso nome, posição , aquisições ? É degradante o anonimato , é desairoso ser desconhecido? Por que seguimos os que são famosos , populares? Por que  não nos contentamos com sermos nós mesmos? É por termos mêdo  e vergonha de ser o que somos , que o nome , a posição e a aquisição se tornam de tão subida importancia? Curioso como é forte o desejo de reconhecimento, de aplauso. Na excitação de uma batalha , praticamos feitos incriveis, pelos quais nos são prestadas grandes honras ; tornamo-nos heróis , matando o nosso semelhante . Mercê de privilégios , talentos ou capacidade e eficencia alcança-se uma posição nas proximidades do cume;  entretanto , o cume não é o cume, pois, sempre se quer mais e mais , na embriagues do sucesso. A nação e os negócios estão personificados em vós mesmo; de vós dependem os acontecimentos: sois o poder.  A religião organizada oferece posição , prestigio e honras; aí também sois alguém, separado , importante. Ou , por outro lado, vos tonais o discipulo de um instrutor , um guru ou um mestre , ou cooperais com eles , na sua obra. sois ainda importante , pois os representais , e participais de suas responsabilidades , porque dais e outros recebem . Embora em nome dêles , sois vós o agente. Podeis cingir uma tanga ou tomar o hábito de monge , mas vós , ainda , quem faz tal gesto , sois vós quem está renunciando.
 
De uma ou outra maneira , sutil ou grosseiramente , o eu é nutrido e sustentado. Afora suas atividades anti-sociais e nocivas , por que razão o eu tem de se manter a sí mesmo? Vivendo , como vivemos , agitados e sofrendo , com prazeres passageiros , porque se apega o nosso eu às satisfações exteriores e interiores , às atividades que acarretam inevitavelmente sofrimento e misérias ?  Nossa sêde de atividade positiva como oposto da negação  faz-nos lutar para ser ; a luta faz-nos sentir-nos vivos , que a nossa vida tem finalidade e iremo-nos aliviando progressivamente das causas do conflito e do sofrimento.  Sentimos que se essa nossa atividade  se detivesse , não seríamos mais nada , estaríamos perdidos , e a  vida  não teria mais significação alguma ; e por isso nos mantemos em movimento , no conflito , na confusão , no antagonismo. Mas percebemos igualmente que há algo mais , um estado diferente , acima e além de toda esta miséria. Achamo-nos , destarte , numa batalha constante dentro de nós mesmos.
 
Quanto maior a ostentação exterior , maior a pobreza interior; mas a libertação desta pobreza não é a tanga . A causa do vazio interior é o desejo de vir a ser ; e tudo o que fizermos nunca será capaz de encher este vazio  . Podeis fugir dele de maneira rudimentar ou requintada ; ele continuará , porém tão perto de vós como a vossa sombra . Podeis nào desejar percrutar êste vazio ; ele , todavia , estará sempre presente. Os atavios e renuncias com que o eu se cobre nunca esconderào a pobreza interior .  Com suas atividades interiores e exteriores , procura o eu enriquecimento, que ele chama experiencia ou por outro nome , conforme sua conveniencia e satisfação. O eu não suporta o anonimato ; poderá cobrir-se com um manto novo, tomar um nome diferente ; a identidade , entretanto , é sua própria essencia. Êsse processo identificador impede o percebimento de sua natureza. O processo cumulativo da identificação  forma, pouco a pouco , o eu , positiva ou negativamente ; e a atividade dêste é sempre  um auto-enclausuramento , por mais ampla que seja a clausura. Todo esforço do eu no sentido de ser ou não ser é um movimento para longe do que é. Separado do seu nome , seus atributos , idiossincrasias e posses, que é o eu? Existe ainda o eu , se lhe são retiradas as suas qaulidades? É o medo de ser nada que impelle o eu à atividade ; mas ele é nada , ele é um vazio.
 
Se somos capazes de enfrentar esse vazio , de ficar em companhia daquela solidão dolorosa , então o mêdo desaparece completamente e ocorre uma transformação fundamental . Para  que isso possa acontecer , precisamos conhecer aquele estado  de ser nada , o que não é possivel  se existe experimentador . Se existe algum desejo de conhecer aquele vazio , com o fim de domina-lo , ultrapassa-lo , transcende-lo, tal experiencia não poderá verificar-se , pois o eu , como entidade continua. Se o experimentador tem uma experiencia , não há mais o estado de conhecer , viver .
 
O conhecer o que é, sem lhe dar nome , é que traz a nossa libertação do que é.


 
 

publicado por SISTER às 10:29

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