Bem Vindos O que os homens chamam de amizade nada mais é do que uma aliança, uma conciliação de interesses recíprocos, uma troca de favores. Na realidade, é um sistema comercial, no qual o amor de si mesmo espera recolher alguma vantagem. La Ro

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Out 08

        no labirinto que é lisboa

        as putas passeiam-se levando a ingenuidade

        entre as pernas com que compram bmw

        e viagens para londres.

        o sorriso de deusas de quinta categoria do olimpo

        ainda captam alguns imberbes

        e velhos com disfunção eréctil

        que apertam o cinto até ao último furo

        numa falsa elegância

        para enfeite das calçadas à portuguesa.

        

        a cidade, pornográfica, vende revistas

        com meninas na capa trabalhadas em photoshop

        para esconder a celulite e as rugas

        que aparecem cada vez mais cedo.

        o marketing do sexo escarrapachado nos comboios, nos eléctricos, nos autocarros

        nos taxis, nos carros das empresas particulares e das instituições públicas

        movimenta-se desde o rossio até camarate.

        a cidade vende-se por sexo em cada esquina

        e nos ministérios do governo

        com a troca de favores libidinosos por alguns milhares de euros.

        

        velha, caquéctica, amarga e dócil, lisboa, actriz porno

        em fim de circuito recebe um cliente bêbado

        a cantar um fado da severa na mouraria

        na bica e no bairro alto

        despejando a dor de corno e o ciúme.

        

        lisboa a cidade mais pornográfica da Europa

        adulta e adolescente

        albergue de prostitutos

        oferece carícias desde o cais das colunas

        até às portas de Benfica que levam para casa

        sapatilhas nike e le coq sportif

        com o sémen derramado sobre o tejo

        que alimenta as ninfas de camões

        para gáudio dos críticos literários

        que vivem fora da contemporaneidade

        e se alimentam dos escarros e dos conceitos do passado.

        

        lisboa, a puta do comércio, a vagina do país

        em desconstrução.

        os pobres, os ricos, os remediados, a pequena e a média burguesia,

        os padres, os acólitos, as religiões,

        todas as religiões

        todos eles mergulham nas pernas de alabastro

        numa orgia interminável.

        

        odeio esta cidade com a capa de puritana

        odeio os habitantes da desgraça recolhendo-se nos templos

        para rezarem a um deus sem rosto que não sorri

        e saem de lá como se tivessem a alma lavada

        para, depois, meterem as mãos entre as coxas da cidade

        e babarem-se como touros com meia dúzia de ferros

        com carícias de olhos arregalados, os lábios a endurecerem

        com o cheiro de um corpo à espera.

        

        odeio-me, sim, odeio-me por fazer parte

        desta procissão escrupulosa no seu dever

        odeio-me por me amar nesta lisboa petéquia

        que me abraça, corrói, drama, gasta

        na satiríase dos seus genes.

        odeio o tejo, o mosteiro dos Jerónimos

        a sé, a igreja de são domingos, são pedro de alcântara,

        a estrela, a graça, a rua dos bacalhoeiros, o coliseu,

        as avenidas novas, a almirante reis, o conde redondo,

        o parque eduardo sétimo, mártires da pátria, a rua do ouro,

        e lisboa inteira, puta nua vestida de virgem messalina.

        

        adormeço com o fado dos búzios de ana moura

        e sabe-me bem. lisboa, rainha jezebel, encosta-se no meu ombro.

 

publicado por SISTER às 07:53

comentários:
sister

obrigado por publicitar o meu poema.

José Félix
josé félix a 22 de Outubro de 2008 às 09:20

Navegando chegeui por cá e com alegria, vi trabalhos meus aqui postados. Obrigada. Meu abraço. Eri
Eri Paiva a 28 de Outubro de 2008 às 05:55

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