Bem Vindos O que os homens chamam de amizade nada mais é do que uma aliança, uma conciliação de interesses recíprocos, uma troca de favores. Na realidade, é um sistema comercial, no qual o amor de si mesmo espera recolher alguma vantagem. La Ro

08
Abr 08


                Só a leve esperança em toda a vida Disfarça a pena de viver, mais nada;
                Nem é mais a existência, resumida,
                Que uma grande esperança malograda.

                O eterno sonho da alma desterrada,
                Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
                É uma hora feliz, sempre adiada
                E que não chega nunca em toda a vida.

                Essa felicidade que supomos,
                Árvore milagrosa que sonhamos
                Toda arreada de dourados pomos,

                Existe, sim: mas nós não a alcançamos
                Porque está sempre apenas onde a pomos
                E nunca a pomos onde nós estamos.

                - II -      

                Eu cantarei de amor tão fortemente
                Com tal celeuma e com tamanhos brados
                Que afinal teus ouvidos, dominados,
                Hão de à força escutar quanto eu sustente.

                Quero que meu amor se te apresente - Não andrajoso e mendigando agrados,
                Mas tal como é: - risonho e sem cuidados,
                Muito de altivo, um tanto de insolente.

                Nem ele mais a desejar se atreve
                Do que merece; eu te amo, e o meu desejo
                Apenas cobra um bem que se me deve.

                Clamo, e não gemo; avanço, e não rastejo;
                E vou de olhos enxutos e alma leve
                À galharda conquista do teu beijo.

                - III -     

                Belas, airosas, pálidas, altivas,
                Como tu mesma, outras mulheres vejo:
                São rainhas, e segue-as num cortejo Extensa multidão de almas cativas.

                Têm a alvura do mármore;
                lascivas Formas; os lábios feitos para o beijo;
                E indiferente e desdenhoso as vejo
                Belas, airosas, pálidas, altivas... Por quê?

                Porque lhes falta a todas elas,
                Mesmo às que são mais puras e mais belas,
                Um detalhe sutil, um quase nada:

                Falta-lhes a paixão que em mim te exalta,
                E entre os encantos de que brilham, falta
                O vago encanto da mulher amada.

                IV     

                Eu não espero o bem que mais desejo:
                Sou condenado, e disso convencido;
                Vossas palavras, com que sou punido,
                São penas e verdades que sobejo.

                O que dizeis é mal muito sabido,
                Pois nem se esconde nem procura ensejo,
                E anda à vista naquilo que mais vejo:
                Em vosso olhar, severo ou distraído.

                Tudo quanto afirmais eu mesmo alego:
                Ao meu amor desamparado e triste
                Toda a esperança de alcançar-vos nego.

                Digo-lhe quanto sei, mas ele insiste; Conto-lhe o mal que vejo, e ele, que é cego,
                Põe-se a sonhar o bem que não existe.

                V     

                "Alma serena e casta, que eu persigo
                Com o meu sonho de amor e de pecado; Abençoado seja, abençoado     
                O rigor que te salva e é meu castigo.

                 Assim desvies sempre do meu lado
                Os teus olhos; nem ouças o que eu digo;
                E assim possa morrer, morrer comigo
                Esse amor criminoso e condenado.

                Sê sempre pura! Eu com denodo enjeito
                Uma ventura obtida com teu dano,
                Bem meu que de teus males fosse feito".

                Assim penso, assim quero, assim me engano
                Como se não sentisse que em meu peito
                Pulsa o covarde coração humano. 
                Vicente de Carvalho

publicado por SISTER às 07:22

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